domingo, 12 de março de 2017

A era digital no contexto da mídia e da informação, com Chomsky

O Noam Chomsky ou simplesmente Chomsky, dispensa maiores apresentações mesmo fora de sua ‘área original’, a linguística onde é uma referência mundial, suas idéias e textos tem se destacado na análise e crítica ao neoliberalismo mundial e sua política imperialista via “matriz norte-americana”, firmando-se como referência, também, nesta área.

Já publicamos aqui alguns textos seus, notadamente, na área de comunicação/mídia, o que tem ajudado a decodificar a tal mídia moderna, seus métodos, embora preservem o “modelo básico” com seus conteúdos manipuladores e alienantes de sempre, e até de forma mais eficiente e precisa.

Este texto/entrevista abaixo não é novo, e de 2014, mas atual e vale à pena dar uma conferida.
"Noam Chomsky: "A era digital não muda a missão da imprensa livre"
México - La Jornada - [Tradução do Diário Liberdade] A era digital não muda o essencial, a missão da mídia comprometida e independiente, sobretudo em momentos em que se requer uma cidadania consciente e comprometida para responder aos sistemas de poder que levam o mundo à fronteira de um desastre apocalíptico, comentou Noam Chomsky em entrevista com "La Jornada". 

Apesar do sombrio panorama que pinta a conjuntura atual, Chomsky assinala que alguns raios de luz de esperança para o mundo provêm de mudanças históricas na América Latina.

Chomsky, o intelectual vivo mais citado no planeta e um dos 10 mais citados na história, é um feroz crítico do modelo neoliberal, das políticas imperiais dos Estados Unidos e de Israel contra o povo palestino, assim como do uso e abuso da comunicação e da imprensa. 

No âmbito acadêmico, Chomsky não só é considerado o pai da linguística moderna, se não que como professor emérito do Instituto Tecnológico de Massachusetts também tem se destacado por suas contribuições à filosofia e às ciências sociais.

Profundamente convencido que dizer a verdade diante do poder é obrigação moral, Chomsky desnuda o imperador todos os dias e ainda é, com seus 85 anos, um dos poucos intelectuais confiáveis e respeitados pelas novas gerações, apesar de que está virtualmente vetado pelos meios massivos tradicionais em seu país e em outros. Portanto, é um homem perigoso para o poder, e por isso segue sendo uma voz vital para o presente e o futuro.

Chomsky, colaborador de "La Jornada" durante vários anos, ofereceu suas reflexões sobre aspectos da conjuntura em uma entrevista com o motivo do aniversario deste periódico.
– Como percebe o que alguns chamam mudanças revolucionárias no panorama da mídia com o surgimento do mundo digital, e que, segundo argumentam alguns, prometeu democratizar o jornalismo e abrir uma era de comunicação  informação massiva? Alguma coisa mudou?
    – Claro que existem mudanças, mas acredito que o fundamental permanece igual. A internet sem dúvida oferece uma oportunidade de acesso a uma rica variedade de informação e análise, como a produção deste tipo de material, com maior facilidade que antes. Também oferece oportunidades para a diversão, a distração, a formação de pessoas cultas, o pensamento descuidado, navegar sem propósito claro e muito mais. Uma boa biblioteca pode oferecer uma oportunidade para que alguém se converta em um biólogo criativo ou um leitor sensível da grande literatura, ou para perder o tempo. Depende de como alguém escolhe usar o que está disponível. Os resultados [da nova era digital] são mistos.

"Para organizadores e ativistas, a internet tem sido uma ferramenta indispensável. Porem aqui requer-se também una nota de cautela. Um dos observadores mais astutos e informados do tumulto no mundo árabe, Patrick Cockburn, escreve que durante os levantamentos da primavera árabe, 'membros da intelectualidade e [frequentemente] pareciam viver e pensar dentro da câmara de ecos da Internet. Poucos expressaram ideias praticas sobre como ir adiante' ou, poderíamos agregar, aprestaram suficiente atenção às realidades políticas, de classe ou militares. Os resultados aí estão a vista, e essas lições podem ser generalizadas.
– Qual deveria ser o papel da mídia progressista neste contexto?
     –Todos permanecemos dependentes das reportagens diretas de jornalistas valentes e honestos, os que fazem seu trabalho com integridade. Nenhuma tecnologia vai mudar isso. O papel da mídia progressista é o mesmo de sempre: tentar buscar a verdade em assuntos de importância, romper a onda de propaganda e engano que está enraizada nos sistemas de poder e oferecer os meios para que as pessoas possam avançar nas lutas por liberdade, justiça e até a sobrevivência frente às ameaças sinistras.
– Você insiste em abordar os efeitos devastadores das políticas do governo dos Estados Unidos e do mundo empresarial, as quais se manifestam em guerras e injustiças sociais e econômicas, e mais recentemente advertiu que isto está chegando a um ponto em que estamos pondo em risco a sobrevivência mesma da civilização. Para aqueles que observam os Estados Unidos e a América Latina neste momento, quais são os desafios mais básicos que enfrentam hoje em dia? Onde percebe o potencial maior para uma resposta diante desses desafios?
     – As ameaças são muito reais. A ameaça de destruição por uma guerra nuclear está sempre presente, e o histórico é atemorizante. O mesmo é certo, talvez ainda com mais proeminência, acerca das ameaças de uma catástrofe ambiental. Pela primeira vez na historia humana estamos frente às possibilidades de destruir as condições de uma sobrevivência decente, e os sistemas de poder estão nos levando a esse precipício.

"No entanto, existem sinais alentadores, em grande medida na América Latina, já que o que tem ocorrido em anos recentes tem um significado verdadeiramente histórico. Pela primeira vez em 500 anos, países da América Latina tem dado passos muito sérios em direção à integração e à independência do poder imperial estrangeiros (no século passado representado principalmente pelos Estados Unidos).

"As mudanças, que são espetaculares, revelam-se de várias maneiras. Não faz muito tempo, América Latina era o 'quintal' de Washington. Os países faziam o que lhes ordenava, ou, se saíam desta linha, eram submetidos a golpes militares, terror assassinato e destruição. Porém agora, em conferências hemisféricas, Estados Unidos e Canadá estão virtualmente ilhados.

"Un estudio reciente de los programas de rendición extraordinariade la Agencia Central de Inteligencia (CIA), una de las formas más salvajes y cobardes de tortura, encontró que colaboró gran parte del mundo, incluida Europa, pero había una excepción: América Latina. Esto es doblemente notable: primero, por la subordinación histórica de la región a Washington, y segundo, porque durante ese periodo [de subordinación] la región era uno de los centros de tortura del mundo.
"Por outro lado, segundo o Tratado de Tlatelolco, América Latina é uma das poucas regiões do mundo com uma zona livre de armas nucleares.

"Em outra área, com comunidades indígenas frequentemente como líderes, vários países latino-americanos tem dado passos significativos para reconhecer os direitos da natureza e buscar economias sustentáveis que freiem a precipitação para um desastre ambiental.

"Tudo isto é dramático e promissor, ainda que não sem falhas e com problemas sérios.

Os desafios que enfrentamos hoje são imensos. O maior potencial [para uma resposta] é uma cidadania ativa e comprometida. Não existe muito tempo para perder. 
– O que te faz rir hoje em dia?
     – Na cultura judia que cresci, existe um conceito de risada através de lágrimas. Lamentavelmente, o mundo oferece muitas oportunidades para esta prática.
Porém existem muitos raios de luz, e amplas razões para esperar que um mundo melhor é possível, como o Foro Social Mundial e seus ramos nos recordam continuamente. E não é acidental que suas raízes são latino-americanas.


Categoria: Batalha de ideias

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